“Acordar de um sonho, e se encontrar em um verdadeiro pesadelo, esta é a minha sina”.
Era mais um dia normal, não tão feliz para ele, mas normal. Ele estava em casa assistindo a um filme, percebia- se que estava em profundo desespero interior e não demonstrava nenhuma reação nem nas partes engraçadas e muito menos nas cenas mais tristes do filme. Eu somente observava, afinal de contas como um bom amigo, eu deveria estar ali para ajudá-lo caso fosse necessário, ele acabara de brigar com a namorada, e acabara de ser demitido tudo no mesmo dia, e por motivos tão vagos que passava a impressão de impossibilidade.
O vendo naquele estado resolvi ir ao mercado buscar algo para comer e levar algo para ele , quando cheguei ao mercado resolvi ir para a sessão de frios procurar algo congelado e fácil de preparar, afinal não queria ficar muito tempo na casa de meu amigo. Quando cheguei à sessão ouvi algumas senhoras cochicharem algo sobre meu amigo não consegui ouvir tudo, mas o que ouvi me assustou. Uma delas falou a seguinte frase que me desesperou por completo.
- Ele não é o amigo do morto? – disse uma das senhoras.
- Morto? Você fala daquele pobre menino da semana... - disse a outra.
- Sim, ei ele está olhando! - respondeu à primeira.
Eu não entendi o porquê, mas uma dor tomou conta de mim naquele momento. - Morto? Que morto? - era o que eu pensava, mas a única coisa que sentia era uma enorme angustia, peguei naquele momento o que tinha que pegar e sai do mercado aceleradamente. Todos começaram a me encarar sem motivo. Voltei a casa de meu amigo, ele que antes estava ali paralisado olhando fixamente para a televisão, não estava mais lá, sumira sem deixar vestígios, - Onde teria ido ele?- - me perguntava, quando meu celular vibrou. Atendi ao telefone e a conversa com uma pessoa de voz grave e muito sínica começou.
- Alô - eu falei
- Olá assassino- respondeu aquela voz
Senti um gelar na espinha.
- Ass... Assassino? Eu? Você está louco? Quem é você? Pare com essa brincadeira - respondi em um tom mais sério.
- Acha que estou brincando? Você acha que é bonito fazer o que você faz e simplesmente esquecer? Vou fazer você sentir cada dor que senti. - Ele falou e desligou o telefone.
Eu não sabia quem era, nem o que queria dizer com aquelas palavras, mas alguma coisa estava errada, em um único dia haviam dito que eu era amigo de um morto e haviam me chamado de assassino o que estava acontecendo? Era somente nisso que eu conseguia pensar.
Sentei-me no sofá um pouco a fim de acalmar minha angústia , quando me sentei senti algo estranho na parede da frente, liguei as luzes e quase morri com o que vi(isto é se eu conseguisse morrer) na parede estava escrito a sangue a seguinte frase - Nem todos são capazes de esquecer as feridas iguais a você. Será que você ao menos é humano Ryan? Ou seria somente um frio assassino?
- Quem é Ryan? De quem é esse sangue? Como assim esquecer feridas?– Nada fazia sentido, mas ao mesmo tempo sentia que aquela mensagem era para mim. Sai às ruas perguntando se alguém havia visto o meu amigo Mateus, mas todos corriam de mim quando falava o nome dele. Foi quando um senhor alto e bastante simpático se aproximou de mim e disse.
- Garoto sabia que não se deve procurar por mortos?– disse o senhor rindo de um modo assustador.
- Mortos? O Mateus não está morto. Eu estava com ele há uns vinte minutos– respondi chorando.
- Não se preocupe Ryan você logo se lembrará de tudo que esqueceu– ele disse sem tirar aquele sorriso que me assustava.
- Lembrar- me do que esqueci? O que quer dizer com isso? – respondi em prantos.
- Acalme- se, Ryan, eu sei que seu outro eu não te deixa ser lembrado, mas eu acabarei com suas dores – disse aquele senhor.
Para mim nada do que ele dizia tinha sentido, era tudo tão vago, quem era esse Ryan, e onde estava o Mateus, onde estava meu amigo? Amigo? Desde quando ele era meu amigo? – por mais que tentasse não conseguia lembrar- se da existência dele antes daquela tarde. Foi quando aquele senhor fez uma pergunta que me abalou ainda mais:
- Garoto quem são seus pais?- – E tornou a sorrir e me encarar.
Realmente, havia algo estranho, eu não me lembrava de quem eram os meus pais, não me lembrava de nada antes daquela tarde aterrorizante.
- Pais? Eu não sei quem são meus pais- – respondi com uma voz trêmula.
- Exatamente, pessoas que estão mortas não se lembram de sua vida na terra sabia?- – respondeu ele de modo agressivo.
- Mas eu estou vivo – Respondi irritado.
- Seu corpo está vivo, mas sua alma se perdeu quando você assassinou todas aquelas pessoas, e colocou a culpa no seu melhor amigo- Ele falou em um tom muito raivoso.
Eu então comecei a ter algumas visões e entendi o que realmente aconteceu. Lembrei- me de tudo.
Chamo- me Ryan tenho 19 anos e meus pais morreram em um incêndio que eu causei quando criança, desde sempre fui colocado em um sanatório na ala de perigosos em potencial, um dia uma pessoa sem nenhum motivo alguém me libertou daquele lugar. Quando sai ás ruas tudo que queria fazer era esquecer-me de tudo, foi quando conheci o Mateus. Mateus era um cara legal, sempre tentava me animar, mas as vozes em minha cabeça sempre ressoavam a matar todos, toda a família daquele rapaz, motivos? Não, não havia motivos para mata-los.
Mas em uma noite, algo tomou conta de mim, e eu levantei- me e matei um a um, lembro- me agora de cada passo que dei de cada gesto que fiz de cada prazer que senti ao tortura-los, a primeira que matei foi a mãe de Mateus, mas antes armei todo um palco, amarrei toda a família, e os fiz brincar de um jogo muito cruel, ver cada parente ser morto um a um. Depois de amarrá-los peguei a mãe e a levei para frente, enquanto estava brincando com a faca via o olhar de desespero em seus olhos, e nunca me senti tão excitado. Peguei a faca e com um golpe arranquei o braço esquerdo dela, como estava amordaçada não conseguia fazer muito barulho, o esposo e o filho viam aquela cena com um olhar de desespero, assim o fiz, mutilei aquela mulher na frente deles. Após ela já estar morta, foi a vez do marido, com ele foi mais rápido, não estava a fim de demorar muito com ele, então o levantei do chão, mesmo ele relutando bastante, bem acho que esse foi o maior erro que ele cometeu, ao tentar me parar, eu acabei por perder a paciência, e assim enfiei a faca em seu pescoço, aquela cena, como eu poderia ter me esquecido de tudo aquilo? De todo aquele prazer?
Deixei então Mateus ajoelhado e fui ate o banheiro lavar minhas mãos, afinal de contas,, eu deveria estar limpo para matar meu melhor e único amigo. Quando voltei a sala vi que ele de alguma forma se soltou das cordas, acho que em um surto acabou escrevendo algo na parede, a sim, ele havia escrito aquilo que me assustara tanto, ele se matou em seguida, com a mesma faca que seu pai foi morto.
Então por que me esqueci? Ah! Sim não podia deixar que as pessoas pensassem que eu havia feito algo, então fingi que tudo estava bem, até os policiais chegarem, e encontrarem toda a família morta, e eu vivo, com isso fingi que estava abalado com o ocorrido e tentei me esquecer de tudo e de alguma forma eu realmente consegui.
- Sim, me lembrei, mas você ainda não me disse quem é você – falei em um tom mais sério.
- Eu? Eu sou um enfermeiro do hospital psiquiátrico em que você estava?– falou ele me aplicando algum tipo de droga para me fazer dormir.
Antes de dormir ainda fiz uma ultima pergunta.
- Então você quem me ligou mais cedo? Como conseguiu aquele numero? – perguntei já sonolento.
A resposta veio com um tom bastante malicioso.
- Eu? Jamais te ligaria, a pessoa que te ligou é alguém que você conhecerá logo, logo, meu amiguinho doente.
Quando acordei estava preso em uma mesa, ou era uma maca? Bem não sabia o que era, mas eu estava preso ali e naquele momento só se passava pela minha cabeça o porquê de tudo aquilo estar acontecendo, por que me tiraram do meu lugar de conforto? O que eu havia feito para sair daquele sanatório. Eis então que uma luz forte pairou sobre meu rosto, aquela luz ardia e muito, minha voz quase não saia, não sei que droga foi usada para me fazer dormir, mas era algo muito forte, eu ainda estava sonolento, e meio tonto, foi quando jogaram um balde de água em mim.
- Está acordado amiguinho? Já tem 4 horas que estou esperando você acordar para brincarmos um pouco. – falou aquele enfermeiro.
- Você disse que é um enfermeiro do hospício onde eu ficava, mas eu não me lembro de você. Quem é você de verdade? – eu estava realmente curioso, quem era aquela pessoa e o que queria comigo?
- Eu? Eu sou aquilo que você poderia ter se tornado se nunca tivesse sido pego por mim. Sabe achei bastante interessante o que você fez na casa dos Waltersons, é interessante ver que ainda existem pessoas com um pensamento parecido com o meu. Mas sabe? Eu odeio competição.
Falando isso o ouvi amolando algo.
- Mas você não era um enfermeiro? - perguntei
- Sim eu era, e quando você entrou naquele hospício percebi rapidamente como poderia usar você, mas lógico tinha que saber até onde você poderia ir, e eu descobri, mas é triste não é? Você ainda sente uma dor de remorso pelo que fez ao seu amigo?
- Um pouco, mas o que isso tem haver? –perguntei intrigado, afinal o que ele realmente queria? E quem era a pessoa que me ligou mais cedo?
- Sabe Ryan se é para ser um assassino seja frio, não sinta remorso, caso contrário você se tornará fraco, e antes que você se torne fraco eu acabarei com sua fraqueza, não acha isso legal? Você irá encontrar todos aqueles que você machucou. – Ele disse isso vindo em minha direção, será esse o meu fim? Eu não queria esse final, eu não conseguia me mexer, mas mesmo que pudesse, não poderia fazer nada, afinal eu deveria realmente merecer aquilo, aquela dor, todo aquele sofrimento foram coisas que plantei.
- Ei o que você está pensando em fazer com meu amado experimento? – Uma voz distante falou isso, em um tom bastante severo.
- Bem ele admitiu ter remorso achei que fosse uma falha. – O enfermeiro respondeu com um tom de medo.
Quem era aquela pessoa? E por que meu suposto assassino teria medo dele? Será que era alguém ainda pior?
- Falha? Quem é você para falar de falhas? Ele não foi pego pela policia igual a você. Acho que ele foi ainda mais útil para mim do que você sabia Paulo?
Paulo? Esse nome eu ouvi muitas vezes no hospício onde eu estava, todos o temiam, diziam que ele era tão louco quanto qualquer um ali, mas que estava pagando pena policial, ele havia matado mais de 15 adolescentes, ele os estupravam e deixava seus corpos a mostra para que todos pudessem ver, ele ficou cerca de 7 anos na solitária, e após isso foi dado como psicótico em potencial, mas ele ajudou os enfermeiros quando foi parar no hospício e por isso ganhou uma maior liberdade, bem isso é pelo fato de que as pessoas daquele lugar realmente não queriam trabalhar então qualquer louco que se mostrasse um pouco - normal- poderia facilmente ter a pena diminuída e arrumar um trabalho naquele lugar, só que mesmo ele como um enfermeiro todos tinham medo dele, eu nunca o havia visto pessoalmente, as enfermeiras que me visitavam diziam que eu deveria manter distancia dele pelo fato de ele adorar - brincar- com os mais novos.
Elas pediram tanto para que eu não me aproximasse dele e olha só, eu estou amarrado e ele com uma faca em minha frente conversando com um desconhecido.
- Se não fosse por mim você jamais teria o seu amado brinquedinho sabia? – Disse Paulo ao desconhecido
- Paulo devo lhe lembrar de tudo que posso fazer com você? Ou você irá abaixar esse facão e se afastar do meu brinquedo? – disse o desconhecido com uma voz mais séria
Brinquedo? Eu virei o brinquedo deles? Por que não me levaram a policia, ou para o hospício novamente? O que eles realmente querem comigo?
- Tudo bem, mas cuidado as coisas não são tão fáceis assim colega – disse Paulo com um tom sarcástico e colocando-me para dormir novamente.
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